Editora : MARTINS MARTINS FONTES Especialidade : FILOSOFIA ISBN : 8561635398 ISBN 13: 9788561635398 Páginas : 336 Publicação : 2009 Edição : 1º Encadernação : BROCHURA
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Sinopse
Filosofia como política cultural é uma seleção dos trabalhos filosóficos de Richard Rorty que foram reunidos na última década, entre 1996 e 2006. Trata-se, de certa maneira, de seu testamento, no qual desenvolveu temas atuais e de interesse permanente, como a religião e a política cultural, o lugar da filosofia e da imaginação na cultura ocidental, o holismo, historicismo e naturalismo.Inspirado em John Dewey, Robert Brandom, William James, e mensurando-se criativamente com Kant, Heidegger, Hegel, Nietzsche, a hermenêutica, o desconstrucionismo e o pós-moderno, Rorty nos deixou uma coleção ímpar de textos que certamente atrairá a todos que tenham interesse pela filosofia e sua relação com a cultura. Do simples ao complexo e apoiando-se na proposta jamesiana de optar sempre pelo “que ajudará a criar um mundo melhor.., Rorty atinge o ápice nos capítulos finais, em que trata da questão da linguagem e da filosofia analítica e suas relações com outras linhas, particularmente a pragmática.
Autor: Richard Rorty nasceu em Nova York em 1931 e morreu em 2007. O intelectual ficou conhecido por suas abordagens pouco convencionais a respeito da filosofia -- ele defendia uma filosofia conhecida como pragmatismo, que considerava um desperdício de tempo a busca por respostas para perguntas como “De onde viemos?”.
Rorty trabalhou nas universidades da Virginia, Princeton e Stanford, onde lecionava não apenas filosofia, mas também literatura e teoria política. Dentre seus livros estão: “Contigência, Ironia e Solidariedade”, “Contra os Patrões, Contra as Oligarquias”, “Ensaios Pragmatistas”, “Ensaios Sobre Heidegger e Outros”, “Filosofia Como Política Cultural”, “Filosofia, Racionalidade, Democracia”, “O Futuro da Religião”, “Para que Serve a Verdade?”, “Pragmatismo e Política” e “Verdade e Progresso”.
Saiu na mídia:
Filosofia sem feitiços universais O pensador Richard Rorty faz testamento-síntese das teses que defendeu durante sua carreira Lucia Santaella - O Estadao de S.Paulo
Bem-vinda a tradução do último livro, Filosofia Como Política Cultural, do filósofo neopragmatista norte-americano Richard Rorty (1931-2007), uma coletânea de ensaios, escritos entre 1996 e 2006 e publicados no original pouco antes da morte do autor.
Sem dúvida, um dos mais proeminentes filósofos da segunda metade do século 20, original, provocativo, sujeito a controvérsias e ataques, mas sempre genial, Rorty foi leitor voraz desde a infância. Conhecedor profundo de línguas e literatura, declarou que, inepto para pequenas conversas, por toda a vida preferiu os livros às reuniões sociais. De fato, seus escritos denunciam leituras infindas, o que lhe permitia mover-se com fluidez perturbadora de Wittgenstein a Heidegger, de Dewey a Derrida, ao mesmo tempo em que extraía ensinamentos de Proust e Nabokov ao lado de Kant e Nietzsche.
Arguto para o comentário de ideias, tinha sempre em vista a discussão de cruciais dilemas ético-políticos. Com aguda capacidade para a análise sagaz e irônica dos argumentos alheios, media milimetricamente suas validades ou suas incongruências. Dotado de lucidez desconcertante, sua escritura exibe um charme retraído, espirituosidade ágil e mordente, vertiginosa capacidade para analogias. Seu estilo marcante não é só de escritura, mas, sobretudo, de pensamento, apresentando um modo hábil e inimitável de se localizar entre diversos pensadores numa única sentença. Discursos menos talentosos, que tentam fazer isso, não passam de uma coleção de pastiches.
Rorty se declarava neossofista, intermediário socrático, polipragmático, ironista liberal. O filósofo, para ele, deve ser um intelectual público e um diletante informado. Politicamente, proclamava-se liberal romântico, cético em relação a quaisquer formas de radicalismo, confiante no fato de que reformas paulatinas podem fazer avançar a justiça econômica e aumentar as liberdades a serem usufruídas pelos cidadãos. Sua agenda política se orientava para o aprofundamento e expansão da solidariedade. A proposta deste seu último livro, traduzido por João Carlos Pijnappel, de que a filosofia funcione como uma política cultural, é uma espécie de testamento-síntese das teses que defendeu nas obras precedentes. Estava convicto de que a filosofia não é uma disciplina epistemológica privilegiada, cabendo-lhe desempenhar um papel político em meio às disputas que agitam a vida cultural.
AUSÊNCIA DE FÉ
Os grandes temas, que repetidamente enunciou em diferentes entonações críticas, estão voltados para a natureza da mente, para o conhecimento, a verdade, a ciência, a ética e os perenes - mas, para ele, inevitavelmente submetidos a contingências - problemas da linguagem e do significado. O que integra a variedade de seus temas em uma unidade é a ausência de fé de que possa haver qualquer descrição acabada da realidade sob o ponto de vista de um olhar divinizado, sob a perspectiva da eternidade.
Sua fama se expandiu pela influência que exerceu sobre as mais diversas áreas das humanidades e ciências sociais: literatura, direito, historiografia, psicoterapia, estudos da comunicação, teoria social. "Quanto mais a filosofia interage com outras atividades humanas - não apenas com a ciência natural, mas também com a arte, a literatura, a religião e a política - mais relevante para a política cultural ela se torna - e, portanto, mais útil. Quanto mais ela luta por autonomia, menos atenção ela merece." Eis o lema que Rorty enunciava sem estremecer diante dos possíveis opositores.
Definia seu pragmatismo sob a rubrica de longas e pesadas palavras: antifundacionalismo, antirrepresentacionalismo e antiessencialismo. Mantendo-se fiel à tese explicitada no seu primeiro livro, A Filosofia e o Espelho da Natureza, argumentava que as discussões sobre mente, conhecimento e sobre a própria filosofia têm sido dominadas, há séculos, pela ideia de representação. Rorty acreditava que são as imagens, mais do que as proposições, as metáforas, mais do que as afirmações, que determinam a maior parte de nossas convicções filosóficas. A imagem que manteve cativa a filosofia tradicional é a da mente como um grande espelho que reflete a realidade. Segundo essa imagem, cabe ao conhecimento ocupar-se da precisão desse reflexo, enquanto à filosofia cabe desenvolver estratégias para obter esse conhecimento. Rorty, ao contrário, abandonou qualquer procura de correspondência entre pensamento-linguagem e mundo.
Tanto quanto John Dewey, seu herói filosófico pessoal, abominava os ninhos e ninhadas de dualismos que animaram o pensamento ocidental durante séculos e que, infelizmente, continuam robustos e vigentes. Como nos diz Paulo Ghiraldelli, um dos maiores estudiosos de Rorty no Brasil, isso começa pela idolatria da dicotomia do sujeito e objeto como guia das ciências naturais e sociais, um modelo metafísico que ajudou a manter, no âmbito da teoria do conhecimento, o dualismo neoplatônico e iluminista entre realidade-ilusão, essência-aparência, de que nem mesmo Marx se safou.
HORIZONTES
Em lugar da aspiração pelas essências suprassensíveis ou pelas profundidades inefáveis, para Rorty, a finalidade da investigação não é atingir a verdade, mas sim solucionar problemas, pois os horizontes da investigação estão em constante expansão. Portanto, todo trabalho filosófico deve direcionar-se para a busca de acordos intersubjetivos, sem a ilusão da promessa de validade universal. Essa é a chave da contribuição que pode ser prestada pelos filósofos para a conversação da humanidade consigo mesma. Uma conversação que segue caminhos imprevisíveis, mas sempre na mira da superação de problemas que não cessam de gerar novos problemas.
Por tudo que seu pensamento demoliu e por tudo que reconstruiu, Richard Rorty merece ser lido não apenas por aqueles que com ele concordam, mas, especialmente, por aqueles que dele discordam.
Lucia Santaella é coordenadora do programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital/PUC-SP